Que nenhum de nós passe pela mesma dor que a dela

  • 30/01/2021


Idosa se emociona em fila de vacinação no Recife ao lembrar da perda da filha para a Covid GloboNews Um novo placar na cobertura da Pandemia inaugura emoções de esperança. A renovação de ânimo vem em fontes de exemplos sobre o melhor que podemos ser, como gente e coletivo. As filas, agora, também são dos vacinados que começamos a contabilizar. E, em cada agulha contra a Covid, recomeça uma possibilidade de vida, uma chance de seguirmos repensando sobre como chegamos e sobrevivemos até aqui. Muitos dos primeiros imunizados são lição de voluntarismo e do que podemos fazer com a nossa dor. Em cada dose, uma história como a nossa, que podia ser a nossa. “Eu comecei a entrevista pelo outro lado do carro, onde estava a vacinadora. De lá vi que ela estava emocionada, senti que queria falar. Com o tempo de reportagem a gente vai percebendo, eu percebo quando alguém quer falar, não sei como.... Às vezes não é tão claro, mas eu sinto que aquela pessoa quer falar. Aí fui para o outro lado, ouvi-la melhor. Foi o maior presente do jornalismo para mim”, me disse Bianka Carvalho, a repórter do Recife que, com sua já conhecida sensibilidade incomum, protagonizou uma das trocas mais humanas nesses meses desumanos. Do outro lado estava Edna Pereira, uma mulher de 85 anos, recebendo a primeira dose num sistema drive-thru implantado pelo governo de Pernambuco nesta semana. Bianka se aproximou, mas não o suficiente para que os microfones pudessem captar com clareza a mensagem naquela mulher. “Não sei se vou conseguir um dia ter aquela força, a grandeza de Dona Edna. No meio de uma dor profunda, externar tamanha generosidade. Isso fala tanto da gente, da capacidade de ser generoso. Espero muito que, num momento de dor, eu consiga ser grata pelo o que existe, para além da dor. Ser grata pelo o que me acontece, pelo o que me entristece, pelo o que me derruba, mas não me destrói, ela estava ali com toda dignidade do mundo”, relembrou Bianka comigo ao telefone. Dignidade cortante. Dona Edna havia perdido há pouco tempo a própria filha para a doença da qual se protegia naquele momento. Sua primogênita, de 54 anos, morreu vítima da novo Coronavírus. Bianka não poderia imaginar. E ali, a alguns centímetros de distância, foi entendendo, numa entrada ao vivo, o que precisava partilhar. A senhora de 85 anos chorou, se emocionou ao lembrar da perda. Mas, em seguida, agradeceu pela chance daquela vacina. E ainda fez um apelo para que as pessoas se cuidassem, usassem máscara. Mas o que dizia era, na verdade, um desejo angustiado: que nenhum de nós passasse pela mesma dor que a dela. No vídeo, exibido mais tarde na GloboNews, colocamos a legenda, para que nada se perdesse daquele recado, afinal, seria um imenso desperdício de humanidade. Do tamanho da perversidade desse vírus que continua se espelhando e testando empatias. Idosa de 85 anos chora ao ser vacinada no Recife: ‘Perdi minha filha pra Covid’ A generosidade da Dona Edna encontra paralelo na humildade da Bianka Carvalho. Em tantos anos de jornalismo, em quase um ano de trabalho intenso durante a Pandemia, ainda se importar tanto, se interessar por cada pessoa em sua caminhada pela melhor informação possível. Dona Edna não foi mais uma idosa feliz porque estava sendo vacinada. Também era. Mas ela fala sobre o que podemos fazer com mágoas, tristezas e revoltas, quando olhamos para fora, para o outro. A dor aguda pela perda da filha voltou junto com aquela entrevista inesperada, foi revivida com muita emoção, força, e com um sentimento muito raro de se ter num momento assim: de gratidão. Foi isso que impressionou minha brilhante colega Bianka, e que tocou profundamente a todos que acompanharam. “Ela podia ter externado tanta coisa ali, a dor é muito falante, a dor é extrovertida. Mas ela conseguiu falar além da dor, conseguiu pensar além da dor, isso me ensinou demais. Para levar pela vida inteira, pensar além da dor. Ela conseguiu expressar a gratidão por estar recebendo a vacina, e foi empática, doce e generosa, quando aconselhou as pessoas a se cuidarem”. A coluna que antecede minhas férias é sobre agradecer, apesar... do que for. Esse ensinamento recebo de Bianka, transmitido por Dona Edna. Que em meio ao brutal, a gente consiga enxergar alguma beleza e seja capaz de agradecer. O blog volta em três semanas. Se cuidem muito.

FONTE: https://g1.globo.com/olha-que-legal/blog/pela-lente-da-gente/post/2021/01/30/que-nenhum-de-nos-passe-pela-mesma-dor-que-a-dela.ghtml

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